Profa. Dra. Maria Dolores Fortes Alves

 

Palestrante, Conferencista. Doutora e Mestre pela PUC/SP, Psicopedagoga, Pedagoga,  Escritora...



Textos

A FASE INICIAL DA CRIANÇA E O OLHAR PSICOPEDAGÓGICO COMO RE-ESTRUTURANTE DAS FUNÇÕES PSÍQUICAS.
Segundo Bossa (2000), A fase inicial é de grande importância no desenvolvimento de qualquer criança visto que, já se constrói conhecimentos desde as primeiras experiências.
Vivências bem simples, como por exemplo, a fome, que desencadeia o choro, o qual por sua vez irá constituir a linguagem; conseqüentemente o objeto de satisfação da fome dará as bases para o desenvolvimento da percepção. Sucessivas aprendizagens vão ocorrendo ao mesmo tempo em que o aparelho psíquico se adapta a realidade, aumentando cada vez mais a importância dos órgãos sensoriais.
O desenvolvimento é um processo interior e a aprendizagem é exterior. Portanto, quanto mais o ambiente social fornecer estímulos, maior será o desenvolvimento, quanto mais se aprende mais se desenvolve; desenvolvimento e aprendizagem andam juntos. Mas, o recíproco também é verdadeiro; quanto menos estímulos e vínculos estruturantes a criança encontrar, principalmente nesta fase tão tenra da infância, menos aprenderá, menos se desenvolverá ou, mais dramática será sua formação psíquica visto que, tão maiores serão seus momentos de alucinação e fantasia visando suprir déficits do ambiente externo.  
É por meio do contato com a mãe, do ‘’olhar no olho’’ no qual a criança desenvolve a concentração, é pelo toque e brincadeiras que ela mapeia e reconhece o mundo externo, vai formando seu esquema corporal e também desenvolvendo noções espaciais, localizando-se no tempo e espaço, reconhecendo limites e ultrapassando obstáculos, encontrando sua posição ‘’ser’’ no mundo. Pelo contato com a ‘’mãe suficientemente boa’’   como diz Winnicott (1981), que a criança consegue interpretar e responder adequadamente as  necessidades e emoções, segue formando o seu ego e auto-reconhecendo-se - percebendo-se como sujeito no mundo -  tornando-se capaz de identificar e expressar corretamente seus sentimentos.
Sabemos, com base em Piaget (1972), que é valioso considerar a carga genética, todavia, o meio onde o sujeito vive, motiva influências. Os estímulos ambientais são preciosos no processo de desenvolvimento das estruturas mentais. A maturação neurofisiológica consiste em importante elemento, ou seja, existe um equipamento neurofisiológico de base, cujo processo de evolução da maturação desse equipamento é fortemente determinado por fatores biológicos. A própria estrutura do Sistema Nervoso Central- equipamento genético que a determina- e os acasos de sua embriogênese, são fatores a serem ponderados, mas o meio intervém também no processo de maturação individual. Portanto, algumas aquisições cognitivas são possíveis porque correspondem as fases de particular sensibilidade. Passada essa fase privilegiada, a aquisição toma-se impossível ou desnaturada. Conseqüentemente, notamos que todo o estimulo, desde o nascimento e muito importante para que o desenvolvimento do funcionamento mental se realize normalmente.
Piaget (1972), entende o desenvolvimento cognitivo como a busca de um equilíbrio superior, num processo de equilibração progressiva constante passando de um estado de menor equilíbrio para um estado de equilíbrio superior. Neste processo, vão surgindo novas estruturas, novas formas de conhecimento.
Conhecer é sempre a assimilação de um dado exterior a um sistema de interpretação. Conhecemos o meio para podermos transformá-lo.
Essa capacidade de atribuir sentido à realidade, depende das estruturas cognitivas que o homem possui. As estruturas de que dispõe um adulto (pensamento formal), são diferentes daquelas que dispõe um bebê ou uma criança.
Conhecer é sempre uma ação, uma atividade que implica em estabelecer um recorte na realidade que observamos. Sempre que a criança entra em contato com algo novo, sua primeira atividade é a de procurar assimilar a novidade com as estruturas ou esquemas mentais que já possui, verificando o quanto eles se adequam ou não, ao novo objeto de conhecimento e, quando não há adaptação, como esses esquemas são modificados, ou seja, ela acomoda para obter e assimilar o novo. Portanto, aprender não é apenas introjetar, reconhecer um dado novo, mas sim reorganizar todo um sistema cognitivo.
Se observarmos as fases do desenvolvimento do pensamento, desde o período sensório-motor ao operatório-formal, veremos que os estímulos externos contribuem para que o aparelho psíquico se adapte a realidade externa, aumentando cada vez mais a importância dos órgãos sensoriais, surgindo assim, a atenção, memória e pensamentos.

Com este estudo objetivamos,

- Demonstrar a importância da interação do bebê com a mãe e com o ambiente para o desenvolvimento das aprendizagens na fase inicial da criança.
- Apontar a importância do trabalho psicopedagógico para restabelecer funções prejudicas na fase inicial devido à falta de interação.
  
Como metodologia fizemos uso de literaturas que versava sobre o assunto bem como discussões acadêmicas sobre o tema em questão. Juntamente com este aparato teórico, coube-nos observações in lócus de 15 crianças na fase de 0 à 6 anos.
Bossa (2000) fala-nos que o bebê usa todo o seu aparato motor e fonador para obter satisfação do que precisa e, não surtindo efeito, ela descobre maneiras de alcançar por si mesma está satisfação. Uma destas maneiras - diríamos que o único recurso que a criança tem por si própria de satisfazer-se - é a alucinação, ou seja, ela alucina uma situação que satisfaça seus desejos, seus instintos. Utilizando-se deste recurso - busca da realização de prazer em si mesma - há uma calma da tensão mas não há registro do prazer de ser gratificado. Não obstante, sabemos que, Isto poderá dificultar a linguagem uma vez que a criança não esta sendo atendida suas necessidades e desejos.
Crianças que, na fase inicial da vida, são privados de receber estímulos básicos externos, como se satisfazerem na hora em que precisam ser supridas, podem ter a psique alterada, existindo possibilidades de apresentarem problemas nos aspectos: psicomotores  afetivos, sociais e lingüísticos.
Alguns dos problemas que podemos perceber nas crianças que foram supridas da realização de suas necessidades básicas em sua fase inicial de vida são: dificuldade de atenção/concentração; agitação excessiva, dificuldade de socialização, dificuldade para atender a regras e respeitar limites, fraqueza em estabelecer vínculos de confiança, imaturidade na linguagem, imaturidade na memória auditiva, etc.
Segundo Bossa (2000) no trabalho psicopedagógico é necessário   estabelecer-se um vínculo de confiança entre criança-profissional,  objetivando que esta (criança) projete e encontre na psicopedagoga a ‘’mãe suficientemente boa’’, ressignificando -a assim, em sua vida e re-elaborando as funções psíquicas que não foram corretamente elaboradas na primeira fase de sua vida.

“A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas, em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é.” (in Winnicott, 1975:59).

A criança demonstra através de suas brincadeiras, quais são suas fantasias inconscientes de patologia e de cura. Provocando a brincadeira e observado o brincar da criança, o Psicopedagogo poderá realizar o diagnóstico e tratar a criança visto que, o jogo, a brincadeira contribuem para um crescimento sadio e uma vida adulta mais satisfatória.  
A modalidade do brincar é uma ferramenta para o diagnóstico psicopedagógico, um denunciador de patologias. Visto que, sabemos de muitos adultos que não puderam elaborar situações traumáticas e dolorosas foram crianças aparentemente normais que não haviam brincado. “O aparecimento e o desaparecimento de um modo de brincar está relacionado à maturação e ao desenvolvimento da criança”. (Bossa, 1994: 15).
Através da formação e utilização das diversas manifestações simbólicas do brincar/jogar como: linguagem, imagem mental, brincadeira simbólica, desenho representativo, imitação de um modelo, a fabulação lúdica, etc., a criança adquire condições de ir percebendo-se como criadora de sua própria história de vida de modo ativo e interativo, tomando consciência das suas ações, passando a aceitar as explicações dos adultos e reestruturando suas hipóteses.  

A criança dá mergulhos cada vez mais profundos e traz á tona situações cheias de emoção. A brincadeira simbólica, por ser zona fronteiriça entre a realidade e a fantasia, entre o eu e o outro, entre o consciente e o inconsciente, muito próxima do sonho, dá realmente condições à criança de representar situações carregadas de afeto e emoção e de se aproximar de forma mais criativa de conteúdos angustiantes. Há possibilidade também de viver os medos e as tensões do outro, de intervir papéis e, portanto, de compreender melhor as relações vividas” (Piaget, apud, Oliveira, p. 33 e 34).  

A brincadeira facilita o crescimento contribui para a saúde, favorece os relacionamentos em grupo, sendo uma forma de comunicação consigo mesmo e com os outros, facilitando o contato com o mundo interno e externo. Pela brincadeira a criança aprende a lidar com suas frustrações, com a tensão da ausência do outro, e com o medo de voltar a vê-lo, correndo o risco de ser aceito. As brincadeiras como intervenção psicopedagógica, irão auxiliar a formação de processos interiores da criança  podendo ser priorizado a forma mais adequada à situação de aprendizagem e re-significação de vínculos negativos.
Diante do conflito dirigido pelo psicopedagogo através do jogo (simbólico), a criança encontrará a possibilidade de re-elaborar seus conflitos interiores bem como assimilar limites e regras o que refletirá positivamente em eventos e convenções sociais bem como no processo de aprendizagem fazendo com que esta criança/aprendente saia de uma modalidade abarrotada - hiper/hipo assimilativa, hiper/hipo acomodativa -, Andrade (2002)  para uma modalidade mais ‘’normal’’, fluitiva. (assimilação e acomodação).  
Segundo Freud - o pai da psicanálise - o jogo, a brincadeira, são os melhores representantes psíquicos dos processos interiores da criança. Através da transferência, que revela o tipo de laço social que houve no ambiente familiar da criança, esta revive os principais conteúdos emocionais que a marcaram.

“No jogo se faz próprio o conhecimento que é do outro, construindo o saber, não pode haver construção do saber se não se joga com o conhecimento” (Fernández, apud Bossa, 2000:111).

De acordo com Aberastury (1992), do ponto de vista afetivo, considera-se que os jogos infantis reproduzem situações psíquicas estruturantes na constituição do eu. Por exemplo, nos jogos de esconder-aparecer, esses jogos significam a expressão do primeiro vínculo, ou seja, o vinculo mãe-filho, e a descoberta pela criança da mãe como objeto de amor separado de si.  Os jogos orais, como as brincadeiras de fazer comidinha, segundo a perspectiva psicanalítica, simbolizariam as possibilidades internalizadas de dar e receber amor. Um cenário simbólico em relação à alimentação é construído a partir da forma como são vivenciadas as questões da oralidade. E, a partir destes jogos e brincadeiras com a ‘’mãe suficientemente boa’’ (ou quem fizer o papel desta) que a criança vai estruturando uma modalidade de incorporação, ligadas às questões de aprendizagem.
Também, quando a criança  brinca/joga, percebe, examina e assimila as regras embutidas nos atos sociais experimentando vários papéis e podendo verificar as conseqüências de seus atos. Ela re-elabora e constrói/reconstrói regras de conduta, re-significa os papéis que anteriormente não foram bem elaborados em sua psique e desenvolve valores mais saudáveis que orientarão seu comportamento.

Conclusão

Através do trabalho psicopedagógico a criança encontrará a possibilidade de reorganizar suas funções psíquicas no contato de confiança estabelecido com o  profissional de psicopedagogia que, por um tempo poderá exerce o papel de ‘’maternagem’’ visando restituir e re-estruturar vínculos de confiança que foram perdidos.
O jogo é uma atividade criativa e também curativa visto que, permite à criança reviver as situações dolorosas em que viveu, modificando essas situações de sofrimento e vivenciando no brincar suas expectativas da realidade servindo assim, de importante mecanismo terapêutico.
No contato com jogos e brincadeiras, a criança irá assimilar regras e normas necessárias para o convívio social, bem como, desenvolverá/restituirá a confiança perdida no ambiente, organizará de modo mais positivo suas pulsões destrutivas e reconstituindo a sua personalidade.

‘’Somos culpados de muitos erros e muitas falhas, mas nosso pior crime é abandonar as crianças desprezando a fonte da vida.
Muitas coisas que precisamos podem esperar, a criança não pode.
É exatamente agora que seus ossos estão se formando, seu sangue está sendo produzido e seus sentimentos estão se desenvolvendo.
Para ela não podemos responder amanhã, seu nome é hoje.’’
Gabriela Mistrall.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento de problemas de aprendizagem.   Porto Alegre: Artes Médicas,1985
WINNICOTT, D. W. A.    A criança e o seu mundo.   6 ª ed.   Rio de Janeiro:Guanabara: Koogan S.A., 1982.
WADSWORTH, B. J. Inteligência e afetividade e da criança na teoria de Piaget. 5a. ed. São Paulo: Pioneira, 1996.


Breve curriculum dos autores(as)

MARIA DOLORES FORTES ALVES
Professora, Pedagoga, Psicopedagoga. Escritora, Palestrante, Conferencista, Doutoranda em Educação pela PUC/SP; Mestre em Educação: Currículo pela PUC/SP; Mestre em Psicopedagogia; Pós Graduação em Distúrbios da Aprendizagem pela Universidade de Buenos Aires; Especialista em Educação em Valores Humanos pela Fundação Peirópolis; Pesquisadora de Educação em Valores Humanos, Inter e Transdisciplinaridade pela PUC/SP e Fundação Peirópolis; autora do livro “De Professor a Educador: Contribuições da psicopedagogia: ressignificar valores e despertar autoria.” e “O Vôo da águia: uma autobiografia” todos pela WAK. mdfortes@hotmail.com
Site pessoal: www.edupsicotrans.net.


NÁDIA APARECIDA BOSSA

Pedagoga, Psicóloga, Psicopedagoga, Mestre em Psicologia pela PUC/SP, Doutora em Psicologia pela USP.
Rua Ilansa, 42-Móoca CEP:03127/070- São Paulo/SP e-mail. nbossa@terra.com.br tel. 55-011-6163-9936



Maria Dolores Fortes Alves
Enviado por Maria Dolores Fortes Alves em 04/10/2007
Alterado em 29/11/2008
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